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E se os buracos das ruas de Joinville falassem?

Publicado em 5 de novembro de 2018

E se os buracos das ruas de Joinville falassem?

“Ai, essa doeu!”, esbravejou B358, o buraco da esquina da Getúlio Vargas com a Inácio Bastos.

Nesse momento você talvez esteja pensando que ele disse isso após algum carro passar por cima dele, porém, não é bem assim.

Se os buracos falassem, eles não iriam gemer de dor. Na verdade, ser atropelado seria a sua essência, portanto, a dor não existiria.
O buraco em questão sentiu dor porque ouviu um xingamento. O que machuca o buraco é a dor da injustiça.
E essa dor só passa quando o buraco é tapado. Aconteceu com B358. Finalmente um funcionário de uma empresa terceirizada da prefeitura jogou uma, duas, três pás de cal, areia e concreto sobre ele e em seguida passou uma camada leve de asfalto.

Aqui jaz um buraco.

Apesar disso, antes de partir, deixou um recado aos outros buracos ao seu redor:

“Galera, mês que vem eu tô de volta!”

E a notícia de sua despedida se espalhou de buraco em buraco. Da Getúlio Vargas foi até a São Paulo, que passou pela Procópio, curvou na Max Colin e chegou na Blumenau. Ali, nessa última, os buracos são poucos. Claro, é o centro, né?

Mas foi na Zona Sul que a notícia atingiu a maior quantidade de ouvintes.
“Poxa, que pena. Dizem que esse buraco era gente boa”, disse B19, um dos buracos mais antigos da cidade que fica na rua Fátima, perto da pracinha.

Mas não tem problema. Buracos serem tapados, apesar de virar notícia, também faz parte do cotidiano. É sobre isso que eles mais conversam, só perdendo para a chegada de novatos que aparecem na área.

Diariamente inúmeros buracos nascem e se juntam aos veteranos. Às vezes nascem buracos dentro de outros buracos, e esses viram amigos inseparáveis.
Todos que nascem chegam para se unir aos colegas e viverem uma vida que é bem difícil.

Todos os dias eles são xingados, humilhados e oprimidos. Sentem na pele (de concreto) a fúria de pessoas que, ao passarem seus carros sobre eles, descarregam todas as suas energias por meio de gritos e palavrões.

É compreensível. As pessoas precisam jogar pra fora esse sentimento, afinal, ninguém merece comprar um automóvel, pagar a manutenção e, do nada, passar com tudo por cima de uma cratera lunar.

Porém, os buracos não têm culpa.
B358, B19 e todos os seus amigos são os mais inocentes nessa história toda.

“O que a gente fez pra merecer isso?”, exclamou B400, um dos 135 buracos da rua Prudente de Moraes.

Até que, num dia, uma pessoa arremessou pra fora de seu automóvel uma latinha de refrigerante. A lata rolou pela rua e caiu num dos buracos, que questionou assustado: “Por que essa pessoa fez isso?”

E seu amigo B05, um buraco aposentado, bastante experiente e que já virou poça de lama, respondeu: “Ah, os humanos gostam de jogar as coisas fora. Nas eleições, por exemplo, isso acontece o tempo todo”.

Intrigado, B400 questionou:
“Nas eleições? O que eles jogam fora?”

E B05 respondeu:

“Os votos. E é por isso que nós existimos.”

Autor: Peterson Fernandes (@petcafer)
Bacharel em Comunicação, pós-graduando em Antropologia e especialista em desviar de buracos em Joinville.

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